Como as pessoas que acompanham o blog aqui sabem, sábado eu fui a um encontro de quadrinhistas em Canoas e estava na pauta o mercado de quadrinhos no Rio Grande do Sul. Conclusão unânime foi: não existe público (leia-se “o público é restrito a outros quadrinhistas e meia dúzia de aficcionados”). O mercado editorial para quadrinhos no RS é um fiasco (assim como o do resto do Brasil). Me lembrei de um primo meu que tinha uma lojinha que vendia quadrinhos, principalmente fanzines, e uma vez ele reclamou para mim “Pô, o pessoal vem aqui, dá uma olha e diz ‘que legal!’, mas não compra porque custa 3 pila. Daí sai na noite e gasta 50 pila em cerveja”.
Voltando ao assunto, a grande reclamação dos quadrinhistas é a falta de público. “Ninguém está acostumado a ler” dizem uns. Mas o que eu acho sintomático é que essa é uma reclamação que escuto em todas as áreas artísticas em que circulo: “Não tem público”. Escuto essa mesma história vinda dos meus amigos artistas plásticos. “Só quem vai a exposições são outros artistas plástico, amigos e família de quem estiver expondo” (digo por experiência própria que são sempre as mesmas pessoas que eu vejo nas vernissages). A mesma coisa acontece com o pessoal do teatro que conheci. “As pessoas não vão ao teatro”, ou “falta a educação e o hábito de ir ao teatro”, ou ainda “as pessoas só vão ao teatro se tiver atores da Globo no elenco”.
Ok, ok, então vamos admitir que é um fato que as artes não tem público, e muito menos tem um grande público disposto a pagar por elas. Mas a culpa é de quem? O que os artistas podem fazer para mudar esse quadro? É muito fácil ficar chorando e colocando a culpa nas famílias que não educam suas crianças, nas escolas que não são as ideais, no governo que não dá os incentivos à cultura que deveria (não só os financeiros)....
Há uns anos atrás, uma grande crítica de teatro brasileira veio a Porto Alegre para uma palestra e disse algo que considero essencial. A frase dela foi algo tipo “A responsabilidade pela formação de um público de teatro é de cada grupo que monta uma peça”. Algo um tanto óbvio, mas que muitos artistas não se dão conta. Como assim? A coisa é bem simples. Vamos ao exemplo didático:
Carlos não tem o hábito de ir ao teatro. Um belo dia, uma amiga de sua namorada vai participar de uma peça e convida os dois para irem assistir. Carlos e sua namorada se arrumam, saem de casa, vão até o teatro, pagam a entrada.... e a peça é uma droga. Resultado: Carlos e sua namorada nunca mais vão ao teatro, ou pelo menos vão demorar alguns anos para voltarem. A montagem que a trupe da amiga da namorada de Carlos fez acabou prestando um desserviço ao teatro.
Simples assim. Agora é só trocar o “Carlos não tem hábito de ir ao teatro” por “ir a exposições” ou “ler quadrinhos” ou qualquer outra coisa. É assim que se forma o público, fazendo ele ter experiências que valham a pena o investimento de tempo e dinheiro. Sim, o público está investindo seu dinheiro e seu tempo (sem falar do investimento emocional) quando deixa de fazer outra coisa para ir a um evento artístico ou ler alguma coisa. Se essa experiência não der retorno para ele, ele concluirá que não vale a pena, que “não gosta” daquele tipo de arte e assim se perde um pessoa que era público em potencial.
Vou pegar o exemplo de Porto Alegre, que conheço bem. Por aqui é possível ir a mais de uma exposição de arte por semana, ou ir a mais de uma peça de teatro por semana. Agora, quantos desses eventos realmente valem a pena? Quantos deles não são um desserviço às artes? Sinceramente, eu costumava ir bem mais a exposições de arte do que vou hoje, porque? Tenho ido cada vez a menos exposições porque a maioria das que vou não vale a passagem de ônibus que vou gastar para chegar no local. Gostaria muito que houvesse menos exposições, mas que cada uma delas fosse mais trabalhada, fosse algo que valesse a pena. Não só por mim, mas por todo o público. Todo o público que é espantado do universo das artes por exposições toscas, peças de teatro vergonhosas, HQs que não valem o papel onde foram impressas e por aí vai... Longe de mim dizer que tudo o que se produz por aqui é ruim. Existem exposições lindíssimas, peças maravilhosas e HQs que realmente justificam o termo “nona arte”, mas como o grande público pode diferenciar uma coisa da outra? (talvez a resposta seja "crítica de arte", mas isso é outro texto) O “Carlos” da nossa história anterior teve a infelicidade de ser convidado para uma peça horrível e isso acabou com um expectador em potencial. Da próxima vez que ele tiver que decidir entre ir no cinema assitir filme americano enlatado ou ir a uma peça de teatro local, certamente ele irá ao cinema. E a culpa é da sociedade que não educa as pessoas para gostar de arte? É culpa do governo que não dá espaço? Talvez, mas também é culpa da amiga da namorada dele que fez uma peça espanta-público. E acredite, existem muitos “Carlos” por aí.
Talvez falte autocrítica para nós artistas na hora de mostrar o nosso trabalho. Normalmente estamos tão ansiosos para mostrar nosso trabalho que não paramos para pensar se nós mesmos, se fôssemos público, gostaríamos de ver aquilo. Não paramos para pensar se nós e o nosso trabalho merecemos o investimento do público.